Futebol

Canindé completa 47 anos de história

Os mais antigos ainda se lembram como era chegar até o número 33 da então rua do Porto, cercada de lagoas por todos os lados. Esta era a entrada da sede da Lusa no final da década de 1950, quando comprou em definitivo a sede social do Canindé. No local, anteriormente, ficava a sede do Deutsch Sportive Club, clube de alemães, que possuía sua sede por lá desde a década de 1930 e onde praticava diversos esportes, como o remo e o futebol.

O pequeno clube de imigrantes alemães alugava o espaço do Canindé de um casal italiano, a família Vanucci, e com o acirramento da 2ª Guerra Mundial, temia que suas instalações fossem tomadas.

Aproveitando a oportunidade, o São Paulo Futebol Clube ofereceu duas opções para a situação do clube: reforma e nacionalização dos seus estatutos conforme solicitava o governo brasileiro, ou o processo de incorporação da entidade. Assim, acabou prevalecendo este último, desta forma, de 1942 a 1955 o Canindé seria a sede do time tricolor onde era praticado diversos esportes como remo, atletismo e natação em águas abertas, porém,  não era utilizado como campo oficial de futebol, servindo apenas para treinamentos da equipe tricolor.

Sede do Canindé nos tempos do São Paulo FC. (Crédito: Arquivo Histórico do São Paulo FC)

A região do Canindé era conhecida como Ilha da Madeira, pois em épocas de cheias do Rio Tietê, formava-se uma espécie de ilha no terreno do clube. O único acesso ao local era feito por uma pinguela (ponte pequena) de tambores de querosene.

Essa ilha era formada devido ao declive do local, por abrigar um porto de areia, utilizado para a construção dos edifícios da cidade até os anos 1940.

O Canindé pouco a pouco foi sendo abandonado pelo São Paulo que, decidido a construir um estádio em um novo local acabou vendendo a área para a família Saddi em 27 de maio de 1955.

A mesma família, através de Wadih Saddi repassaria em 1956 o Canindé a Portuguesa de Desportos por cerca de Cr$ 35.000.000,00. Um dos grandes patrocinadores que auxiliaram a diretoria Lusa a financiar a aquisição de sua nova sede, foi um grande personagem do clube, Manoel Maraia de Almeida, dos Biscoitos Bela Vista, torcedor ferrenho e associado lusitano, que assinou um dos cheques da negociação.

O Estádio Ilha da Madeira, com suas lagoas a sua volta, no final da década de 1950. Acervo Jayme Ramos

Uma das primeiras providências lusitanas no sentido de minimizar o precário acesso ao local foi buscar apoio junto ao poder público municipal no intuito de obter ajuda para aterrar as lagoas do Canindé. Wladimir de Toledo Pizza, na época, o então prefeito da capital, logo tratou de ajudar o clube rubro-verde e mandou que as terras que saíram da Avenida Celso Garcia após seu asfaltamento fossem enviadas para aterrar as lagoas do Canindé.

Depois de fazer algumas adaptações no campo que existia no local e que era usado como centro de treinamentos pelo São Paulo, a Lusa também estruturou o Canindé para que pudesse receber mando de jogos do campeonato paulista de futebolç. Para isto foi levantado alambrados em volta do gramado e instalação de arquibancadas feitas de madeira, ressaltando ainda mais o apelido que o local já tinha: Ilha da Madeira.

Ilha da Madeira, em foto de 1957. Nota-se as lagoas junto a sede do Clube. Foto: Acervo Museu da Portuguesa

As festividades oficiais para a inauguração do novo estádio paulistano ocorreriam no mês de novembro de 1956. Era o dia onze quando a Lusa recebeu o combinado de São Paulo/Palmeiras e acabou vencendo o jogo por 3 a 2. Recebendo partidas oficiais da Lusa em campeonatos de futebol, o Canindé manteve seu aspecto original até 1962, data que  se iniciou a demolição das arquibancadas de madeira.

Após a inauguração do Canindé, os lusos não se deixavam por satisfeito e assim, a diretoria assinava um contrato com o renomado arquiteto modernista J. Villanova Artigas para o projeto do novo estádio de futebol e de seu parque aquático.

Estádio Ilha da Madeira, já com parte das lagoas aterradas, final da década de 1950. Foto: Acervo Museu da Portuguesa

Para ajudar na empreitada do projeto do novo estádio a Portuguesa lançaria no mesmo ano os carnês de aquisição de títulos patrimoniais com a empresa Santa Paula/Melhoramentos. Esta seria a primeira de uma série de campanhas que ao longo dos anos se tornariam infrutíferas, deixando o sonho do estádio luso cada vez mais distante. Com mais uma campanha frustrante (1967) o presidente luso da época, Manuel Marques M. Gregório convidava uma grande figura lusitana para ajudar na campanha em prol do estádio.

Oswaldo Teixeira Duarte, o personagem que batiza o estádio da Lusa, era na época procurador aposentado da Prefeitura de São Paulo e tinha sido fundador da Unisa (Universidade de Santo Amaro).

Parque aquático do Canindé em foto da década de 1970. Projeto de autoria de J. VillaNova Artigas. Foto: Acervo Museu da Portuguesa

Caberia a ele, apresentar a diretoria Rubro-Verde uma nova campanha, que desta vez teria êxito o “Jubileu de Ouro”.

Em 22 de abril de 1969 as  plantas do novo estádio foram apresentadas, tendo o arquiteto Hoover Américo Sampaio assumido os trabalhos. Hoover, professor do Mackenzie foi convidado por um diretor da Lusa para desenhar o novo estádio e não fez feio; seu projeto com suas arcadas modernistas é até hoje fruto de estudo de diversos estudantes de arquitetura.

Devido a grande popularidade que obteve na liderança da construção do estádio, Oswaldo T. Duarte é alçado em 1970 a presidência do clube e persegue até o fim o sonho que tinha desde criança, erguer o estádio do clube do coração. Após alguns contratempos, como a falência da construtora responsável pela obra, finalmente o estádio de futebol, cujo nome inicial seria Independência, é inaugurado em 09 de janeiro de 1972, com um amistoso contra o Benfica de Portugal.

Dezembro de 1971: finalização do campo e do primeiro anel do estádio. Foto: Acervo Museu da Portuguesa

A partida, que teve o placar de 3 a 1 para o Benfica não foi terminada devido a fortes chuvas que caíram no local. O primeiro gol do Canindé foi marcado pelo jogador português Vítor Batista.

Uma bonita história que aconteceu na construção do estádio foi a dos pregos. Três diretores com idade avançada do departamento de patrimônio passavam o dia fiscalizando as obras do estádio e perceberam o desperdício na utilização de pregos na concretagem das arquibancadas. Estes três senhores (Antônio Augusto, Serafim Brito e Abílio Augusto) recolhiam os pregos tortos pelo uso e levavam para suas casas onde o desentortavam e levavam na manhã seguinte para novamente ser usados.

Construção do terceiro anel do estádio no final da década de 1970. Foto: Acervo Museu da Portuguesa

A partir do ano de 1973 começavam as obras do anel superior do estádio, onde seriam  instaladas as cadeiras numeradas e as tribunas de imprensa e de conselheiros. Sua inauguração ainda que de modo incompleto, se deu em 1981 quando em 11 de janeiro foram inaugurados os refletores do estádio com o Torneio Internacional do Canindé, com a participação de Corinthians, Fluminense e Sporting(POR). Vale lembrar que esta foi uma das primeiras ações de marketing de um clube de futebol no Brasil, já que o Banco Itaú patrocinou o torneio dos refletores. A Lusa acabou levando o torneio.

 

Vista aérea atual do estádio do Canindé. Foto: Divulgação/Portuguesa

Utilizado para práticas esportivas como futebol, futebol americano e rúgbi, além de abrigar shows de médio porte e outros eventos de entretenimento, sua estrutura multiuso e seu fácil acesso são diferenciais que colocam o Canindé como um dos locais mais queridos da capital paulista.